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31 de dezembro de 2013

Sacrifício de animais e liberdade de culto

O tema hoje é "sacrifício de animais para rituais religiosos". Vamos lá. 
Primeiramente, é impossível aceitar que, em pleno século XXI, os animais não tenham liberdade à vida plenamente garantida por lei. Hoje a lei proíbe maus tratos, o que é um grande avanço num perspectiva histórica. Mas a indústria alimentícia pode matar animais para lucrar. Isso sem citar a farmacêutica, cosmética, da moda, etc... E você pode matar qualquer animal do jeito que você quiser para exercer sua liberdade de culto, o que é uma garantia constitucional.
Bom, se a coisa avançar, um dia será proibido matar animais, seja para comer, seja para lucrar com suas partes ou para fins religiosos. Mas estamos longe disso... Se fosse crime matar animal em qualquer circunstância, não seria justificável a defesa da liberdade de culto, pois a lei não permite que se matem pessoas para fins religiosos, correto? A Constituição tem o direito à vida como cláusula pétrea... mas apenas a vida dos seres humanos... se os animais também tivessem esta garantia, a liberdade de culto jamais justificaria o sacrifício animal.
Quanto à questão religiosa... vamos às religiões de matrizes africanas, notoriamente o Candomblé. O Candomblé é fruto da herança religiosa trazida pelos escravos de diferentes tribos africanas. Sabe-se que a infinidade de tribos da costa africana, onde se comercializava escravos, tinha cada uma seu sistema de culto. Também é sabido que no Brasil escravocrata os negros oriundos da mesma tribo eram apartados no momento da venda de modo a evitar a formação de grupos onde se falasse o mesmo dialeto ou língua, facilitando assim a submissão do escravo. Com isso, pense na multiplicidade de cultos e dialetos, que foram se perdendo ao longo do tempo, e somente com a união dessa multiplicidade através do Candomblé foi possível perpetrar o culto aos orixás, e mesmo assim houve algumas divisões de culto (as famosas nações, como Ketu, Bantu, Nagô, Angola, Jeje, etc).
Pois bem, por ter uma origem tribal, o Candomblé brasileiro enfrentou muitos desafios em uma terra onde o modo de vida ocidental e urbano não condizia com muitos de seus ritos. Por essa razão, a religião teve de adaptar-se ao longo dos séculos, como forma de resistência. Passou por diversas adaptações para se moldar aos padrões de vida urbano, no qual muitos ritos se tornaram inviáveis, como por exemplo o longo tempo de permanência no roncó. Isto não sou eu quem digo, mas sociólogos da religião, como Patrícia Birman e Renato Ortiz em sua obra "A Morte Branca do Feiticeiro Negro" (que, aliás, recomendo para qualquer pessoa).

Este é apenas um exemplo de muitos ritos alterados. Não devo discutir aqui o que deva ou não ser mudado na religião hoje em dia porque não sou Candoblecista, não tenho conhecimentos sociológicos e nem doutrinários da religião. Mas tenho minha opinião pessoal e leiga sobre os direitos dos animais, e aqui vem minha defesa:

1 - Em primeiro lugar, acho que se você é contra o sacrifício de animais em qualquer ritual religioso, você também deveria ser contra a matança de animais para satisfazer seu apetite. Não se esqueça que o bife que você come não brota na geladeira do açougue. O seu bife é um animal abatido friamente. A diferença é que no ritual Candoblecista ainda se tem mais respeito pelo animal, pela sua importância sagrada. Porém, o método rudimentar faz com que o sofrimento do animal seja equivalente ao de quando é morto em abatedouros.

2 - Por essa razão, acredito que para ser contra o sacrifício, você tenha que rever seus hábitos. Muda a finalidade, mas você está sendo tão assassino quanto aquele que mata a galinha ou o bode para um orixá. A diferença é que você paga para não sujar suas mãos no sangue para saborear seu filé.

3 - Acredito que o Candomblé precisa rever estas práticas, porém com a mesma necessidade com que toda e qualquer pessoa deva rever seus hábitos alimentares. Não vivemos em tribos, não matamos mais o que vamos comer, e não DEVEMOS mais comer animais e nem explorá-los. Para mim, comer animais é tão primitivo quanto oferecê-los em um ritual. No dia em que matar animal PARA QUALQUER FINALIDADE se tornar lei, não haverá mais desculpa. O Candomblé terá de se adaptar à lei do Estado supostamente laico, como se adaptou inúmeras vezes antes aos padrões de vida da sociedade urbana.

4 - Esta movimentação já existe. Muitos ilês estão aderindo à abolição de sacrifícios animais, assim como utilização de materiais biodegradáveis em ebós (oferendas) para não poluir o santuário maior das religiões de matriz africana: a própria Natureza, morada dos orixás sagrados.

E, para finalizar, deixo aqui a opinião de uma filha de santo a respeito:

"Eu, enquanto vegetariana e do santo, me recuso terminantemente a oferecer a morte a meu Orixá. Infelizmente, a história é deturpada e o conceito de matança aceita no candomblé é irreal. Você não pode oferecer a morte a um ser que não precisa se alimentar de restos, nem tampouco da ausência de vida. Pai Oxalá é grande e é pai de todos, inclusive dos animais, e é por isso que eu digo: quem somos nós para tirar uma vida, seja lá pelo motivo que for? Quem nos deu o direito de ceifar uma existência, de findar um espirito de luz? A realidade da religião de origem africana era o compartilhamento, portanto, a comunidade consumia o animal, em regiões cruelmente massacradas da África, e dividia com seu Orixá aquilo que comia. Porém, nós não precisamos nos alimentar de sofrimento e a tortura não é o ato de machucar um animal, mas privá-lo da vida, uma vida que não pertence a você. Nenhum animal se oferece livremente para morrer em seu nome, e forçá-lo a isso é sim uma covardia. Espero, verdadeiramente, que o povo de santo evolua sua mente para a real presença de cada Orixá, que não precisa ter sangue sobre si, pois é a essência da pureza e da luz. Aguardo, ansiosamente pelo dia em que nós, irmãos de santo, possamos honrar o nome daquilo que somos e buscar a união espiritual e a evolução, juntos. Axé!"


Natal





Hoje é um dia conturbado. Um dia odiado por muitos. Um dia que perdeu o seu real significado, e fez despertar nos homens a revolta. A revolta por uma data forjada, forjada pela Igreja católica para camuflar a festa pagã do solstício. Também forjada pelo capitalismo, assim como tantas outras datas, para lucrar explorando o consumismo. Revolta das crianças pobres que passam toda a sua infância esperando papai Noel, e nada recebem. Revolta daqueles que enxergam o consumismo das crianças mais abastadas. Papai Noel é um velhinho fascista e malvado.

Há também a revolta pela falsidade de pessoas que nos apunhalam pelas costas o ano inteiro, mas nessa época nos abraçam e nos desejam coisas boas, também falsamente. Há também em alguns, em uma minoria de pessoas, a revolta pela matança de tantos animais inocentes, o derramamento de sangue para encher a ceia de natal, celebrando-se a vida com a morte. E há também a revolta pelo desperdício e os excessos na mesa e no copo, enquanto tantos outros não têm o que comer neste dia.

A toda essa aura pesada e negativa no plano da matéria, soma-se toda a escuridão espiritual. Sabemos que toda energia no plano da matéria é ligada à energia do plano astral, e uma alimenta a outra. O ódio dos encarnados alimenta o ódio dos desencarnados, e vice-versa.

Toda convenção social criada, todo e qualquer procedimento, crença, enfim, qualquer criação mental humana, existe no plano espiritual. Os guardiões de Deus se transmutam naquilo que acreditamos e disso fazem seus instrumentos. Além disso, toda pessoa quando morre, leva em seu espírito a bagagem que adquiriu em terra. Portanto, se o Natal é uma data marcante na terra, também o será no astral para aqueles que se foram.

A importância do Natal está naquilo que não enxergamos. Mesmo com a
mediunidade que cada um carrega, não temos o dom de enxergar tudo o que se passa no plano do espírito. Quantos espíritos cegos pelo rancor e por desejo de vingança, são tocados pela luz do perdão porque baixam a guarda neste dia? Quantos vão para luz, tocados profundamente pela imagem de Jesus Cristo ou Mãe Maria? Quantos se rastejam no lodo dos umbrais ou são escravizados nas trevas, e nesta data imploram por misericórdia divina e finalmente enxergam uma fagulha de luz em meio a um cenário de horror?

Portanto, hoje é dia de trabalho sim. Não precisamos estar dentro de um terreiro ou casa espírita para trabalhar. Hoje é dia de exercer nosso papel. É dia de mentalizar, de irradiar energias. Porque os falangeiros, os socorristas, as entidades que militam nas trevas não trabalham sozinhas. Toda e qualquer energia do bem irradiada serve de sustentáculo para que a luz resista e consiga brilhar, mesmo que por um segundo, em meio a escuridão.

Então façamos nossa parte. Estejamos abertos de coração, irradiemos tudo que há de melhor dentro de nós, para que todos aqueles que precisem de boas vibrações, sejam encarnados ou desencarnados, recebam em suas almas a paz, o perdão, a misericórdia e a força que precisam para continuar suas trajetórias.

Vamos hoje fortalecer nossa luz, para que chegue ao máximo número de lares e corações. Que aqueles que passam necessidades e dificuldades materiais, recebam a solidariedade, a mão estendida que precisam. Que aqueles que sofrem de enfermidades, tenham força para enfrentar e vencer os males da carne. Que aqueles que são injustiçados, tenham na justiça divina o alento para seguir em frente. Que toda criatura que sofra neste mundo, encarnada ou desencarnada, seja reconfortada com a luz que emanamos.

E, mais importante... pensemos em nós mesmos. Hoje também é dia de agradecer. De dobrar os joelhos com humildade e agradecer a Jesus, Oxalá, Olorum, não importa. Faça uma oração e doe o que você tem de melhor, e agradeça pelo que teve de melhor neste ano e em toda a sua vida. Não é necessário pedir, porque Deus sabe de nossas angústias e necessidades. Porém, ao doar, imediatamente receberemos o que é de nosso merecimento. Porque é dando que se recebe.

Que a felicidade que pulsa nessa luz tão sagrada irradiada hoje seja sentida por todos nós. Que a gratidão seja maior que a tristeza. Que a fé seja maior que a crença. Que o amor seja imensamente maior hoje, mais fortalecido, para que possa resistir e se multiplicar no ano que se inicia. Um feliz Natal!

11 de dezembro de 2012

Besouro, o filme.







Besouro foi o maior capoeirista de todos os tempos. Um menino que -- ao se identificar com o inseto que ao voar desafia as leis da física -- desafia ele mesmo as leis do preconceito e da opressão. Passado no Recôncavo dos anos 20, Besouro é um filme de aventura, paixão, misticismo e coragem. Uma história imortalizada por gerações, que chega aos cinemas com ação e poesia no cenário deslumbrante do Recôncavo Baiano.

Quando Manoel Henrique Pereira nasceu, não havia nem dez anos que o Brasil tinha sido o último país do mundo a libertar seus escravos.

Naqueles tempos pós-abolição nossos negros continuavam tão alijados da sociedade que muitos deles ainda se questionavam se a liberdade tinha sido, de fato, um bom negócio. Afinal, antes de 1888 eles não eram cidadãos, mas tinham comida e casa para morar. Após a abolição, criou-se um imenso contingente de brasileiros livres, porém desempregados e sem-teto. A maioria sem preparo para trabalhar em outros serviços além daqueles mesmos que já realizavam na época da escravatura. E quase todos ainda sem a plena consciência de sua cidadania. O resultado desse quadro, principalmente nas regiões rurais, onde estavam os engenhos de açúcar e plantações de café, foi o surgimento de um grande contingente de negros libertos que continuavam, mesmo anos após a abolição, submetendo-se aos abusos e desmandos perpetrados por fazendeiros e senhores de engenho.

Assim era sociedade rural brasileira de 1897, ano em que Manoel Henrique Pereira, filho dos ex-escravos João Grosso e Maria Haifa, nasceu na cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

Vinte anos depois, Manoel já era muito mais conhecido na cidade como Besouro Mangangá - ou Besouro Cordão de Ouro -, um jovem forte e corajoso, que não sabia ler nem escrever, mas que jogava capoeira como ninguém e não levava desaforo para casa. Como quase todos os negros de Santo Amaro na época, vivia em função das fazendas da região, trabalhando na roça de cana dos engenhos. Mas, ao contrário da maioria, ele não tinha medo dos patrões. E foram justamente os atritos com seus empregadores - e posteriormente com a polícia - que deixaram Besouro conhecido e começaram a escrever a sua imortalidade na cultura negra brasileira.

Há poucos registros oficiais sobre sua trajetória, mas é de se supor que a postura pouco subserviente do capoeirista tenha sido interpretada pelas autoridades da época como uma verdadeira subversão. Não por acaso, constam nas histórias sobre ele episódios de brigas grandiosas com a polícia, nas quais ele sempre se saía melhor, mesmo quando enfrentava as balas de peito aberto. Relatos de fugas espetaculares, muitas vezes inexplicáveis, deram origem a seu principal apelido: Mangangá é uma denominação regional para um tipo de besouro que produz uma dolorosa ferroada. O capoeirista era, portanto, "aquele que batia e depois sumia". E sumia como? Voando, diziam as pessoas...

Histórias como essas, verdadeiras ou não, foram aos poucos construindo a fama de Besouro. Que se tornou um mito - e um símbolo da luta pelo reconhecimento da cultura negra no Brasil - nos anos que se sucederam à sua morte.

Morte que ocorreu, também, num episódio cercado de controvérsias. Sabe-se que ele foi esfaqueado, após uma briga com empregados de uma fazenda. Registros policiais de Santo Amaro indicam que ele foi vítima de uma emboscada preparada pelo filho de um fazendeiro, de quem era desafeto. Já a lenda reza que Besouro só morreu porque foi atingido por uma faca de ticum, madeira nobre e dura, tida no universo das religiões afro-brasileiras como a única capaz de matar um homem de "corpo fechado".

E Besouro, o mito, certamente era um desses.

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=q-t5cL-Pdfw

29 de outubro de 2010

Uma certa trajetória espiritual...



Eu doida prá parir logo o post de Umbanda, mas não dá prá falar disso sem falar como cheguei a isso. Sei que corro o risco de fazer uma narrativa enfadonha, mas só entendendo minha trajetória espiritual prá entender como construí meu ponto de vista, o meu olhar sobre a Umbanda.

Ok, vamos lá. Na verdade já tem um resuminho sobre isso nas páginas do blog, vou tentar reproduzir o que eu disse lá sem me estender muito. Bem, minhas lembranças religiosas mais remotas são de um centro de umbanda que minha família frequentava - detalhe: a família TODA, sem exceção.

Eu era muito pequerrucha, e por isso mesmo me lembro que sempre chegava uma certa hora da noite no centro que eu dormia nos bancos de madeira do público. Era estranho ver todo mundo da minha família no congá, a maioria deles incorporada. Mais estranho ainda era minha avó com erê em dia de Cosme e Damião. Ver sua avó chupando chupeta não é uma visão usual, confunde qualquer cabecinha em tenra idade.

Bem, me lembro que iam os vizinhos também. Era tudo muito organizado, o pessoal disciplinado. Eles se trocavam lá, todos vestiam branco, as únicas cores que apareciam na vestimenta eram as cores das guias nos pescoços.

Mas esta é uma época remota mesmo, virou história. Página virada. Todos pararam de frequentar o centro por razões diversas, mas felizmente a fé nunca abandonaram - e a mediunidade ficou latente em cada um, impressionante. O único "rito" que sobrou deste capítulo de nossa família foi o saudoso tio Renato, com seu baiano Sebastião Oliveira dos Santos, que ia na casa do meu vô mais ou menos uma vez por ano prá aconselhar a família e vislumbrar nossos futuros e passados.

Bem, neste ínterim, nós fomos crescendo sem nenhuma religião definida, nada além de um certo espiritualismo. Acreditava em reencarnação e espíritos, mas não seguia nada piamente. Não quis fazer comunhão ou crisma, porque achava um absurdo fazer um troço desse se eu não me considerava católica.

Num dezembro de 1999, minha madrinha Susi (irmã de minha mãe), deixou uma meia dúzia de livros 'espiriteiros' (créditos do termo: blog "vida de dois ursos". Mais que recomendo! Post fantástico sobre o espírita e a homossexualidade) prá minha mãe ler. Claro que minha mãe num leu nenhum, e eu, na maior curiosidade, peguei um que se chamava "Copos que andam". Era sobre a famosa brincadeira do copo. Como no colégio o pessoal fazia a aterrorizante brincadeira do compasso (que sempre terminava em cocô), fiquei curiosa prá ler o livro.

Daí pronto. Foi um atrás do outro, e em poucas horas de leitura eu enfiei na minha cabeça que queria ser oficialmente espírita. Eu tinha treze anos, e li todo o acervo que minha madrinha tinha em casa. Fiquei insaciável, e um belo de um dia neste mesmo verão, pus uma saia jeans, uma blusinha e um tamanquinho e me atirei nos sebos de Santana prá comprar livros espíritas. Foi a primeira vez que saí de fato sozinha.

No sebo eu comprei o crássico "Violetas na Janela", além do Evangelho segundo o Espiritismo. Eu tava louca prá ler Kardec logo, e me encantei com o Evangelho. Daí, um dia eu estava na casa da minha melhor amiga da escola, a Juliana. Contei prá ela sobre a minha super jornada espiritual e ela disse que uma vez o pai dela comentou que tinha um centro espírita lá na rua dela.

Como estávamos sozinhas, nos atiramos na rua à procura do tal centro. E demos de cara com ele. Tocamos a campainha, e um rapaz nos atendeu, disse que naquela semana mesma estaria começando o grupo de jovens, no sábado às 16h00.

Cara, tempos áureos! Arrastei minha irmã pro centro, aprendemos a tocar flauta, entramos no coral e tínhamos aula só com o livro dos espíritos. Nosso mestre de então, o sr. Guerrero (que guardo no fundo do coração), injetava Kardec em nossas veias, sem a menor moderação.

Nesta época eu me joguei de cabeça no espiritismo. E fiquei uma crente insuportável, proselitista e inflexível - assim como é a maioria dos 'espiriteiros' de plantão que se autoproclamam "kardecistas". Isso foi até os 18 anos, quando comecei a trabalhar em uma livraria. Lá também vendiam livros espíritas, e por trabalhar no meio, comecei a sacar algumas paradas estratégicas de best sellers.

Foi quando eu me dei conta que a Zibia Gasparetto não é espírita, apesar de ser literalmente adorada pelos espiriteiros. E eu enxerguei nisso a maior estratégia de marketing livreiro de todos os tempos. Ela faz a mesma coisa que os escritores do New Age americano. Sem se autoproclamar coisa nenhuma, consegue adeptos de todos os credos e não-credos possíveis.

Aí foi decepção pura. Não acho que ela seja charlatã. Até porque eu já vi o filho dela pintando 3 quadros de uma vez, cada um com um membro diferente do corpo, e quadros lindíssimos. E não creio que a vovó Mafalda tenha tanta criatividade prá escrever romances de época. Mas  e daí? Médium existe com todo o tipo de caráter, e era o caráter e as intenções da velhota que estavam em jogo prá mim.

Peguei birra ferrenha dos Gaspas. Poxa vida, tavam melando o movimento espiriteiro, usando TODA a base da doutrina sem fazer nenhuma menção a ela, e às suas custas ganhando rios de dinheiro. Quinta colunas do cacete, viu...

Depois desse desencanto, veio o próximo. O Ramatis. Comecei a me inteirar mais sobre o movimento espírita, a estudar sua história. E descobri a facção esotérica que se desvinculou do mainstream (A FEB - Federação espírita Brasileira) e fundou a Aliança Espírita.

Ramatis é safra da Aliança, se não me engano. É um espírito todo esotérico, e seus livros vão de encontro a princípios básicos da doutrina. Coisa de louco. Não sei como as pessoas conseguem conciliar ideias tão diametralmente opostas... Meu, o cara diz que os marcianos são louros porque são hierarquicamente superiores a nós. Darwinismo social na veia, VSF!!!!

Aí depois disso, veio o terceiro desencanto. Com o centro. Ou melhor, os trabalhadores do centro. As paranóias deles, os pré-conceitos, a religiosidade fervorosa que eles negam até a morte (ops, desencarne). Os jargões de seu vocabulário, seus clichés comportamentais e tabus.

Comecei a me sentir sufocada por aquele bando de ignorantes. Comecei a presenciar cenas ridículas de gente fingindo estar incorporada prá falar o que quisesse e ter prestígio. Mas o que mais me irritava era o falso moralismo. Bando de hipócritas, humpf.

Aos 22 anos abandonei o centro, completamente desiludida. Foi quando encontrei o "Espiritismo Ortodoxo". Pessoas com as mesmas inquietações que as minhas. Que viam um espiritismo degradado, maculado pela religiosidade mandingueira espiritólica de nosso povo.

O raciocínio desse pessoal é mais ou menos assim: Kardec usou o C.U.E.E (controle universal do ensino dos espíritos), um método empírico, portanto científico e racional. Só ele usou a psicografia com racionalidade científica, coisa que ninguém jamais voltou a fazer. Portanto, se não é Kardec, não é racional, e não é espiritismo.

Achei tudo isso o máximo. Mas essa empolgação durou menos de um ano, felizmente. Isso porque esse pessoal é mega radical. Eles se dizem racionais, mas prá mim são racionalistas. O extremo oposto do espiritismo à brasileira, todo ritualístico e sincrético. Só que este extremo foi muito prejudicial prá mim.

Isso porque à medida que eu racionalizava cada vez mais minha fé, mas eu a perdia. Não sei como esse pessoal consegue nutrir fé sendo tão racional. Até hoje eu não concordo que exista a tal fé racional, porque são coisas opostas prá mim. A fé é um ato religioso, e portanto não racionalizável. Quanto mais eu me enfiava no Espiritismo ortodoxo, mas eu me afastava de minha própria espiritualidade. Porque o aprimoramento moral passou a parecer algo tão infantilóide e irracional, que abandonei minhas preces e o pouco que restou de minha empolgação espiriteira.

Enfim, abandonei o Espiritismo ortodoxo e fiquei flutuando num mar etéreo até o coração começar a bater forte com os atabaques... Eu percebi que não dá prá querer racionalizar a verdade do universo, e "há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina vossa vã filosofia" começou a fazer mais sentido do que nunca.

Voltei a me entregar à magia religiosa que me cercava nos tempos idos de adoração espírita. Só que agora sem me amarrar a credo nenhum ou doutrina. Me sinto livre, e nunca minha intuição esteve tão aguçada. Nunca tive tantas experiências transcendentais como tenho agora, e me sinto mais conectada com os meu guias do que estive em qualquer fase anterior.

Antes, se um espírito me pedisse prá eu acender uma vela, jamais o faria. Afinal, o que é uma vela? Um nada, pois o que manda é o pensamento. Tola, a vela é um instrumento prá canalizar o pensamento. O racionalismo puro, livre de qualquer grau de magia é, na minha opinião, intangível pelo homem. Precisamos ainda de instrumentos de fé - seja ele um hino evangélico, uma vela, um santinho ou um patuá. Não importa. e nesse sentido, a vela continua sendo um nada, mas o que é produzido através dela, é maior do que pensa nossa vã filosofia.