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8 de setembro de 2010

Nossa juventude conservadora



Quando se trata da Globo, eu confesso que tenho uma tendência conspiracionista. Não é primeira vez que assisto a uma reportagem do Fantástico com uma sensação incômoda de manipulação e etc. A primeira vez foi quando mostraram um ritual de passagem de uma tribo não sei de onde, na qual os jovens índios tinham que enfiar a mão em uma luva de formigas para se tornarem homens de fato perante a tribo.

O Fantástico retratou o ritual de maneira extremamente tendenciosa, caracterizando-o como desumano e primitivo, deixando a entender que os jovens índios são uns coitados nas mãos da tribo. Prá fechar com chave de ouro, mostraram um indiozinho, uma criança que dizia que não faria o ritual quando crescesse. O mais interessante é que mostraram esta criança como a única criatura sensata da tribo, e talvez a única esperança à irracionalidade primitiva de seus semelhantes. Cara, numa boa. Levi-Strauss deve ter se revirado legal no túmulo com essa.

A segunda vez foi neste domingo, com a reportagem sobre a iniciativa do Ministério da Saúde de disponibilizar camisinhas nas escolas. A reação negativa dos próprios jovens me deixou chocada. Fico pensando se não foi mesmo uma reportagem tendenciosa, até porque somente um ou dois jovens se mostraram a favor, e primeiro mostraram uma grande maioria contra. Fora que fizeram uma enquete ao vivo, na qual somente 54% dos telespectadores se manifestaram a favor.

Manipulada ou não, uma coisa é fato. Nossa juventude está cada vez mais conservadora. Tudo bem que o próprio Fantástico já noticiou isto neste ano. Mas para além de pesquisas e dados estatísticos (manipulados ou não), isto é um fato observável. Se a geração de nossos pais se preocupava com o futuro político de nosso país e de nossas garantias individuais, e sonhavam romper com a ordem para a conquista de seus direitos e realizações de seus sonhos, hoje a nossa juventude não quer romper a ordem, mas se inserir nela.

Nossos jovens não queimam sutiãs e não pintam os rostos para protestar nas ruas, mas planejam suas carreiras e inserção no mercado de trabalho, a compra de seus bens tecnológicos, planejam casar, constituir família, ter um bom emprego estável e morrer de velhice, preferivelmente dormindo.

Não que nossa juventude tenha virado uma massa amorfa e apática. Mas aparentemente, se algo suscitava um caráter transformador e "libertário", este algo não existe mais. Ele deu vazão não só a um conformismo e uma abulia política (o que, segundo alguns analistas políticos, é uma reação natural perante a conquista da democracia estável), mas um retorno a valores conservadores, e isto que é assustador.

É certo que não houve revolução burguesa na América Latina, e que somos impregnados por posturas tradicionalistas. É certo que o capitalismo não se desenvolveu plenamente aqui, e "Saturno nos trópicos" é mais do que uma fadiga depressiva. Os valores liberais não colaram. So sorry, babe...

Daí se explica porque é um aborto legalizar o aborto aqui. E porque a união homossexual nunca é legalizada, e os direitos dos cidadãos GLBT não são respeitados. Daí se explica muita coisa. 

Enquanto Estado laico (apesar dos crucifixos nas paredes dos tribunais), o Governo Federal brasileiro cumpre com seu papel e coloca a saúde pública acima de quaisquer convicções pessoais e religiosas. A atitude do governo foi pautada em dados estatístico sobre gravidez na adolescência e a AIDS.

Eu me lembrei das caras e bocas que surgiram quando o Ministério da Saúde resolveu distribuir camisinha nas ruas em época de carnaval. E tinha aquelas propagandas divertidas, com aquela marchinha dizendo que até Cleópatra encapuzava o boneco.

Na época disseram que era o pandemônio, que ali o sexo chegara à sua banalização extrema. Porém, a questão não é banalizar. O que mexe com as veias tradicionalistas é o fato de que o governo tirou o sexo da caixa preta do tabu religioso e social e o elevou ao nível do cotidiano de nossos adolescentes, o colocou no lugar que o pertence de fato, e de onde jamais deverá sair de novo.

Escola é lugar de distribuir camisinha sim. Finalmente o governo tomou uma atitude condizente com a realidade sexual de nossos jovens, cujo comportamento irá mudar sim com tal atitude. Não fazendo mais sexo, mas fazendo sexo com mais proteção.