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5 de dezembro de 2012

Tá rindo de quê?


SÓ TENHO A DIZER O SEGUINTE: ASSISTAM!!!






TÁ RINDO DE QUÊ?

O Riso dos Outros discute limites do humor; leia entrevista com o diretor do documentário
Fonte: revista Trip.com.br
Acesse: http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/ta-rindo-de-que.html



O documentário O Riso dos Outros, exibido nesta semana pela TV Câmara, vem fazendo um enorme sucesso nas redes sociais. Trazendo entrevistas com comediantes, humoristas, quadrinistas, acadêmicos e especialistas, o filme chegou para reacender o debate sobre os limites do humor.
O diretor Pedro Arantes tem consciência de que está mexendo em um vespeiro. Para o documentário ele falou com pessoas tão diferente como a blogueira feminista Lola Aronovich e o bad boy da vez, Rafinha Bastos, passando pelos quadrinistas Laerte, André Dahmer e Arnaldo Branco, o apresentador e comediante Danilo Gentilli, o deputado Jean Wyllis, o escritor Antonio Prata e muitos outros.
Aos 28 anos, Arantes ganhou espaço na TV nacional produzindo as séries As Olivias (Multishow), Vida de Estagiário (Canal Brasil) e uma série de quadros humorísticos na TV Cultura. Agora, analisa com outros olhos o novo cenário da comédia nacional, colocando sob os holofotes os protagonistas dessa nova safra.
Batemos um papo com Arantes sobre a repercussão do novo filme, os rumos do humor e a culpa por trás das risadas.
Como surgiu a ideia de fazer o documentário?
O filme foi financiado por um edital da TV Câmara para três filmes. E um dos eixos temáticos que eles propuseram foi ética, que em contexto com o humor sempre foi uma discussão constante aqui na produtora [Massa Real Filmes]. Já estávamos há tempos discutindo sobre esse tipo de humor e o politicamente correto, se existem ou não limites para o humor, essas coisas. Então inscrevemos o projeto com esse tema e felizmente fomos contemplados.
Como foi a escolha dos personagens?
Esse edital tinha um problema, que era o prazo: foram só quatro meses para produzir o filme. Conseguimos uma prorrogação, mas ainda assim foi bem pouco tempo. Vimos que com esse tempo não poderíamos explorar todos os tipos de humor. Então começamos a restringir esse universo. Decidimos falar sobre stand up, com um contraponto dos cartunistas, já que esses caras a gente sabia que poderiam falar bem sobre o assunto. Um terceiro lado foi a presença de gente como o Jean Wyllys e aLola Aronovich, que são mais ativistas mesmo, porque eles estão bem no meio da discussão e até já tiveram entreveros com esses comediantes. Fomos atrás de quem estava discutindo esse assunto, mas o nosso recorte foi o stand up, por serem essas pessoas as que mais movimentam o cenário humorístico hoje no Brasil.
Como diretor, qual o seu tipo de humor favorito?
É difícil falar sobre tipos de humor. É tanta coisa diferente que é impossível comparar. Tem o humor mais pastelão que o Buster Keaton fez com maestria e que é genial. Existe um humor mais de texto como o do Woody Allen, que também é genial. Tem até o humor que não é de dar risada, como o do Wes Anderson [risos]. Então é difícil dizer. Cada um desses sempre funciona quando é bem feito. Eu particularmente gosto de um humor de texto que trabalhe um pouco com o absurdo. Todo mundo que trabalha com humor fala isso, mas o que eu mais gosto é o Monthy Phyton, que tem esse texto genial mas que eles sempre levaram cada vez mais para o absurdo. Mas a princípio eu não descartaria nenhum tipo de humor.
"Muitas vezes o humor te pega de calça curta. A surpresa também é o riso. Às vezes você vai rir de alguma coisa e depois vai pensar que não deveria ter feito isso."
Você também trabalha com humor. Do que você procura se afastar quando está dirigindo comédias?
Cara, fazer comédia é um negócio meio sério [gargalhadas]. Eu percebo a contradição: comédia é para fazer as pessoas rirem. Mas tem que ter um pouco de tato. Um humorista precisa testar as piadas com diferentes tipos de público. Você pode sim trabalhar com temas que são delicados. Eu acho que não existe nenhum tema proibido no humor. Agora, você tem que se cercar de cuidados para poder trabalhar com determinados temas. Eu procuro primeiro fugir do óbvio. A piada óbvia é sempre a primeira a vir na cabeça. Você pode partir do óbvio, nunca chegar nele. Procuro também fugir ao máximo dos estereótipos que já estão muito cristalizados e que às vezes estão reproduzindo visões de mundo com as quais eu não concordo.
Então o importante não é o que se diz, mas como se diz...
Exato. O humor tem esse trabalho - que não é nem um pouco engraçado - que é ficar dissecando piadas para ver onde elas estão chegando. Quando você coloca uma piada em um filme ou uma série, esse trabalho não aparece. Mas atrás de cada piada tem que haver esse trabalho de ver, rever, refazer e reescrever até chegar em uma coisa engraçada, que não é óbvia e que quebra alguma noção de estereótipo.
"O que eu acho é que tem setores da sociedade que são mais organizados que outros. Então parece que fazer piada de anão é menos ofensivo do que fazer piada com negros. Mas a verdade é que os negros são um grupo muito melhor organizados historicamente do que o grupo dos anões. É só isso."
Essa discussão sobre os limites no humor acaba se resumindo em uma batalha entre as pessoas que acreditam que o humor quebra preconceitos contra as que acreditam que o humor reforça o preconceito. Qual dos dois lados está certo?
O Laerte fala muito bem sobre isso. Ele diz que o humor é uma linguagem como qualquer outra. E a linguagem em si não diz nada. Tudo depende de quem está falando. O que eu acho importante é mostrar que não estamos pregando um tipo de humor. Não estamos falando que o humor tem que quebrar com o preconceito. Eu não acho que o humor tenha que fazer nada. Você que está fazendo a piada é que tem que saber o que você está falando ou deixando de falar. Esse é o ponto. Esse papo recorrente de que existe humor neutro é absurda, porque não existe discurso neutro. E o filme quer mostrar um pouco isso: que as piadas que estão mais naturalizadas não são em si naturais. Tudo isso é uma construção e depende da posição do artista. O importante, ao meu ver, é que o artista se posicione. Não pode também se montar nesse discurso de neutralidade. Isso é a pura ingenuidade.
Você acha que tem algum grupo que é alvo de piadas e que as pessoas protegem mais do que outros?
O que eu acho é que tem setores da sociedade que são mais organizados que outros. Então parece que fazer piada de anão é menos ofensivo do que fazer piada com negros. Mas a verdade é que os negros são um grupo muito melhor organizados historicamente do que o grupo dos anões. É só isso. Mas eu não acho que esses estereótipos não devam ser usados. Eles podem ser usados até de maneira muito positiva, justamente para ridicularizar o preconceito em si. Tem humoristas brilhantes que se utilizam muito de estereótipos como o Bill Hicks ou o Louis CK. Eles são caras que jogam com essas ideias de estereótipos e que invertem totalmente a noção de preconceito. Outra coisa que o Laerte disse na gravação do filme é que sempre vai haver alguém ofendido quando se faz uma piada. A questão é como a gente negocia essa ofensa historicamente.
"Sempre vai haver alguém ofendido quando se faz uma piada. A questão é como a gente negocia essa ofensa historicamente" - Laerte
O que também esbarra na organização social das minorias...Em determinado momento, tal grupo histórico pode estar mais ou menos organizado, o que muda o quanto você pode falar desse grupo. Por exemplo: hoje em dia, fazer piada de judeu é muito complicado. Mas 50 anos atrás era banal fazer piada com judeus por mais pesada que essa piada fosse. Então se construiu uma questão que impediu as pessoas de fazer esse tipo de piada. Mas é tudo uma construção e só depende do tempo.
Você já achou graça em alguma piada que seja preconceituosa e depois se sentiu mal com isso?
Não consigo pensar em nenhum caso específico, mas com certeza já aconteceu [risos]. Tem até aquela situação do riso nervoso, mas já ri sim. Você pode rir de alguma tragédia e de alguma desgraça, tem até um tipo inteiro de humor baseado nisso. Muitas vezes o humor te pega de calça curta. A surpresa também é o riso. Às vezes você vai rir de alguma coisa e depois vai pensar que não deveria ter feito isso.
"A gente ri e isso faz parte da vida. Mas a gente também pensa sobre coisas. A culpa é um sentimento castrador. Não precisa se culpar, basta refletir."
Como curtir humor sem sentir culpa?
Aí é que está: se a gente fica no campo da culpa, talvez a discussão fique um pouco pequena. Você está sempre revendo sua postura diante da vida, ou ao menos deveria [risos]. Então você vai rir de alguma coisa em determinado momento e que depois você não vai achar mais graça. Outras coisas você não achava engraçado antes e agora acha. Esse é até um dos objetivos do filme. Não é pra ninguém ficar sentindo culpa porque riu de alguma coisa. Mais jovem, eu ria muito de piada de gay. Hoje em dia, já tendo pensado sobre isso, eu realmente não acho mais graça. Você faz essa elaboração na sua cabeça e a partir daí você passa a não achar mais engraçado. A ideia do filme é mostrar isso: gente, tudo bem. A gente ri e isso faz parte da vida. Mas a gente também pensa sobre coisas. A culpa é um sentimento castrador. Não precisa se culpar, basta refletir.
Veja o filme na íntegra no player abaixo.

8 de outubro de 2010

Misantropia na veia - the bipolar moment revisited



Quase uma semana sem o meu Prozac (fluoxetina), e já estou subindo pelas paredes. Cara, tô num momento de misantropia constante, um inferno astral sem tamanho... tá tudo voltando feito uma avalanche, furiosamente.

Daí porque há quase uma semana meu sonho de consumo passou a ser uma HK. Convívio social passou a ser sinônimo de batalha, e das mais sangrentas possíveis. Eu, no meu exército de uma mulher só, querendo realizar o maior genocídio da história. Holocausto? Nunca aconteceu, magina. Mas pode acontecer a qualquer momento! GRRR! Get out o' my way!!!!

Ai, ai... tô me lembrando de uma coisa. Tenho um amiga Borderline, e às vezes temos umas ideias insanas conversando pelo msn. Um dia eu dei a brilhante ideia de irmos a uma micareta juntas,  só prá podermos distribuir socos e cotoveladas gratuitamente. Credo, odeio micareta. Odeio Carnaval da Bahia, odeio trio elétrico, odeio tudo. Argh! Mas a ideia é boa, né?

Enfim... ainda bem que teimei em fazer esse blog um dia. Preciso vomitar essas coisas que me torturam. Eu tô de um jeito, que prá pôr os pés fora de casa tá sendo um martírio. Não consigo olhar pros lados, não quero ver gente na minha frente, ouvir gente, sentir cheiro de gente, tenho raiva, muita raiva. Vontade de provocar uma hecatombe atômica e deixar as baratas reinando este planeta dos infernos...

Alguma dúvida da minha bipolaridade? Tsc, nessas horas eu só queria que minha endócrino lêsse meu blog. Ela acha que meu problema é pura depressão... mal sabe ela que a minha depressão é capaz de chegar a extremos de provocar danos mais contundentes do que a depressão de 29. O crack da bolsa num é nada perto do que acontece aqui dentro das minhas fronteiras macroeconômicas.

E como não tô dizendo coisa com coisa e já tô assustando quem me lê, aviso que amanhã eu vou correndo na Ultrafarma comprar o bicho. É que tô há uma semana me recusando a pagar 40 conto, na Ultra não passa de 20 merréis... Todo esse sofrimento por estar sendo carcamana. Depois eu vou e torro 20 conto em sei lá o quê. Nonsense.

Ah, só prá esclarecer o título do post: bipolaridade também é um termo usado prá definir o sistema mundial durante a Guerra Fria, com as duas superpotências mundiais (EUA e URSS), cada uma em seu extremo oposto ideológico. "Bipolar moment revisited" foi na verdade um trocadilho com o artigo do Krauthammer um dos falcões do governo fucking Bush) , chamado "The unipolar moment revisited".

Isto porque alguns autores defendem que estamos vivendo um momento unipolar, com os EUA por cima da carne seca total. Outros, mais conscientes (e portanto menos americanóides), defendem que o sistema internacional vive um momento multipolar (com várias potências no comando), lideradas pela Colúmbia - o tio Sam (tá, ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, PORRA...)

Vocês sabiam que os Estados Unidos quase se chamaram Colúmbia?  Aff, acho que tá na hora de parar de escrever... E só prá constar, nunca fiz um post com tantos links. Annoying thing...




4 de outubro de 2010

Metal contra as nuvens



Ontem foi um dia deprimente. Nublado, frio, com eleição e pilhas de texto pendentes prá leitura. Tem combinação mais enfadonha? Lá fui eu prá zona norte rever minha família e a antiga escola na qual estudei até a oitava série... A cada eleição vem uma onda nostálgica tirar do baúl os tempos melancólicos da EMPG Comandante Gastão Moutinho.

As paredes sujas e nojentas deram lugar a uma pintura impecável. Nunca pensei que o ambiente degenerado e escuro daquela escola fosse um dia se tornar tão iluminado e agradável (na medida do possível, claro). Agora o Gastão se parece mais com um hospital público do que uma estrutura carcerária. Grande avanço, não?

Trabalhinos escolares prá tudo que é lado. Salas de aula todas coloridas, violetas nas janelas (no plano físico mesmo, nada de divagações espiriteiras, rsrs), florzinhas de papel em tudo que era canto, em comemoração à primavera. Não vi uma pichação sequer, nem nas carteiras...

Diante deste cenário, que só vi melhorar a cada ano de eleição, não tinha como não fazer comparações com a minha época de estudante... Me lembro que tinha nojo de tudo que era canto... Acho que o nível de concentração de coliformes fecais alí era similar aos níveis do saudoso Carandiru. E a gente se sentia mesmo num pavilhão, era uma coisa de doido.

Pixação tinha prá tudo que era lado. Tinham as meninas da gangue local, a NPZ (até hoje não sei o que significa a sigla). Morria de medo delas, sempre fui cagona. Também já cheguei a ver na saída marmanjos com armas na cintura.

Tinha também o tio Carlos, que tratava a gente feito carcereiro. Quem corresse no recreio ele mandava ficar de pé encostado na parede do pátio até dar a hora de ir prá sala... e antes de ir, ainda fazia os transgressores catarem todo o lixo que os alunos jogavam no chão (o chão do pátio era nojento demais... tinha sempre uma camada escura melequenta de sujeira, misturada com restos de comida que todo mundo jogava no chão. Maior porqueira.)

Daí vem também as memórias políticas suscitadas por conta da eleição. Na terceira série (precisamente 1993), aprendemos a fazer conta com a inflação. Fiquei o ano inteiro recortando anúncios de supermercado e calculando, por exemplo, quanto o quilo do arroz custaria dali um mês... As contas tinham uns seis dígitos, o cruzeiro era mesmo uma coisa medonha, ainda mais em época de inflação.

Ah, a inflação!!! palavra que ouvia pelo menos três vezes ao dia... Às sete da noite jantávamos, depois vinha o Jornal Nacional. Ficávamos na sala com meu vô, sem entender uma palavra que o Bóris Casoy pronunciava (a não ser o "isto é uma vergonha"). Ouvia o tempo todo sobre inflação, e precisamente às oito da noite íamos dormir.

Lembro também da cara de galã do Collor, e depois do impeachmant. Das fitinhas verde e amarelo nas antenas dos carros e do sentimento de apatia quando se falava em política. Da vergonha de ser brasileiro e da total desesperança no futuro...

Política era uma coisa indecifrável que eu associava a  homem velho intelectual engravatado que aspirava a poder. Ou sindicalistas barbudos. Lembro do martelo de da foice, e ficava me perguntando o que era aquela maluquice toda, e porque do vermelho. Tanta parafernália que ainda transita na minha memória...

Quando cheguei em casa ontem, não consegui estudar. Tava muito cansada. Me desanimei a ponto de decidir trancar duas matérias da faculdade... e às onze e tantas da noite, voltei atrás... sempre que chego a este ponto de eutanásia, vem uma música que não me deixa desligar os aparelhos... Metal contra as nuvens.

Daí pronto, tudo se juntou e fez mais sentido do que nunca. Para além das milhares de interpretações que existem por aí, tenho comigo que essa música o Renato Russo fez quando das poupanças confiscadas. Quem me disse isso uma vez acho que foi minha irmã, e não consigo acreditar que exista outra interpretação melhor. Leia a letra, e veja se você concorda comigo.

E também é uma letra que fala de esperança, esperança de quem foi roubado e não exerga nada além de um futuro sombrio. Mas que não se entrega e confia, mesmo não sabendo no quê. Juntando a depressão puquiana com as eleições, cheguei em Metal contra as nuvens.



Metal Contra as Nuvens


Legião Urbana

Composição: Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá


I



Não sou escravo de ninguém

Ninguém, senhor do meu domínio

Sei o que devo defender

E, por valor eu tenho

E temo o que agora se desfaz.



Viajamos sete léguas

Por entre abismos e florestas

Por Deus nunca me vi tão só

É a própria fé o que destrói

Estes são dias desleais.



Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão

Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão

Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.



Reconheço meu pesar

Quando tudo é traição,

O que venho encontrar

É a virtude em outras mãos.



Minha terra é a terra que é minha

E sempre será

Minha terra tem a lua, tem estrelas

E sempre terá.



II



Quase acreditei na sua promessa

E o que vejo é fome e destruição

Perdi a minha sela e a minha espada

Perdi o meu castelo e minha princesa.



Quase acreditei, quase acreditei



E, por honra, se existir verdade

Existem os tolos e existe o ladrão

E há quem se alimente do que é roubo

Mas vou guardar o meu tesouro

Caso você esteja mentindo.



Olha o sopro do dragão...



III



É a verdade o que assombra

O descaso que condena,

A estupidez, o que destrói



Eu vejo tudo que se foi

E o que não existe mais

Tenho os sentidos já dormentes,

O corpo quer, a alma entende.



Esta é a terra-de-ninguém

Sei que devo resistir

Eu quero a espada em minhas mãos.



Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão

Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão

Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.



Não me entrego sem lutar

Tenho, ainda, coração

Não aprendi a me render

Que caia o inimigo então.



IV



- Tudo passa, tudo passará...



E nossa história não estará pelo avesso

Assim, sem final feliz.

Teremos coisas bonitas pra contar.



E até lá, vamos viver

Temos muito ainda por fazer

Não olhe pra trás

Apenas começamos.

O mundo começa agora

Apenas começamos





1 de outubro de 2010

Boca de urna: vote Doritos Original!



Injustiça tamanha essa edição limitada do Doritos Original. A Pepsico (sim, a Elma Chips foi engolida, viva a competição monopolística! Nostalgia ao lembrar daquela carinha estranha e sorridente no verso das embalagens, ainda tem isso?) precisa ser notificada deste grande erro. E por isso venho aqui lançar uma campanha em prol do melhor Doritos de todos os tempos.

Eu me lembro da primeira vez que experimentei Doritos, devia ter uns seis anos. Tudo bem que foi só um triangulinho, porque até eu começar a trabalhar aos dezesseis, tudo era regrado no quesito junk food. E talvez justamente a educação militar do meu vô (levávamos sempre um yakult ou suco na garrafa da lancheira  e duas bisnaguinhas com manteiga ou requeijão prá escola) tenha contribuído para que na adolescência se desencadeasse uma compulsão alimentar com toda a sua fúria. Ou não, vai saber.

Enfim, a embalagem era branca e azul, e lembro que detestei o bicho. Puta coisa sem graça, num tinha gosto de nada. Não prá uma criança que se acabava em Cheetos e Fritex. Mas vamos ao que interessa: se você também quer que o Doritos Original fique para sempre nas prateleiras, proteste aqui.

Toda essa pajelança só prá começar a falar de eleições. Sim, vou manifestar minhas intenções de voto, sem o menor pudor. Eu sei que religião, futebol e política não se discute, se lamenta. Mas prá isso eu deixo o espaço de comentários, fica aí um muro de lamentações... Não espero que concordem comigo não, e também não me ofende quem pensa diferente de mim. Só não xingue minha mãe, coitada. A Dona Sueli tem seus defeitos, mas é gente boa!

Mas antes de divulgar aqui os meus célebres escolhidos, alguma ideias discutíveis:


1) VOTAR NÃO É O MESMO QUE ELEGER

Eu sei que prá muita gente isso é óbvio. Só queria fazer um apelo àqueles que se sentem desestimulados em votar em quem não tá por cima nas pesquisas. Eu sei que existe a sensação de que não adianta nada votar porque o candidato vai perder e etc. Mas prá essas pessoas, fica aqui uma reflexão.

Quando você vota num partido miado, você ajuda a fortalecê-lo. Aumenta seu prestígio e sua confiabilidade, mesmo que lentamente. Aos poucos, o partido vai aumentando sua bancada, obtendo maior apoio político, se engrenhando em coligações, enfim, se institucionalizando.  Aí surge mais grana prá propaganda e marketing e etc.  É o que aconteceu com o PT desde sua fundação. Não por acaso o Lula venceu no auge institucional do PT. Com um partido mais amadurecido e organizado.

Por isso, não deixe de votar num candidato só porque ele não tem chances de ganhar. Hoje ele perde, mas amanhã ele estará mais fortalecido, e poderá vir a ser eleito. Isto é muito bom, pois permite que haja mais forças políticas, com uma maior diversidade representativa atuando seja no governo, seja na oposição.


2) VOTO OBRIGATÓRIO É BOM


Sempre achei um absurdo voto obrigatório. Isso até começar a estudar política, rsrs. O problema do voto não obrigatório é que desistimula a participação política das classes mais baixas. Isso porque votar envolve custos, principalmente de transporte. Aqui em São Paulo a realidade é outra, mais imagine um cara no Amazonas que tem que pegar um barco, um jumento e ainda andar uns 5 km prá poder votar? 

Quem tem meio de locomoção fácil? As classes de maior poder aquisitivo. Resultado? Política vai virar coisa de gente rica. E daí os interesses das classes mais baixas vão prás cucuias.

Existe um certo senso comum de que voto não deve ser obrigatório porque muita gente que não entende nada de política (lê-se gente pobre) só vota mal e põe quem não deve no poder. Isso explicaria, por exemplo, o fato do Tiririca e outras bizarrices estarem por cima da carne seca.

Mas "saber votar" é algo muito abstrato. O ato de votar implica muito mais do que pesquisa e exercício intelectual. É uma escolha também emocional. E prá quem não concorda, dê uma lida em autores de neurolinguística como George Lakoff. 99% de nossos pensamentos não são racionais, crê?

Mas ok, isso é uma discussão que dá muito pano prá manga. E apesar da ousadia de falar sobre o assunto, não tenho cacife prá tanto.


3)AND THE OSCAR GOES TO...

Finalmente minhas intenções de voto. Check it out:

Presidente: Marina Silva - 43


Vou Marinar sim. Já Lulei duas vezes, mas chega de PT. Alternância de partidos, pelo amor de Deus, né? OK, ela não vai ganhar. Mas num voto na Dilma. Quero dar meu voto prá ver mais um partido novo crescer e disputar o páreo nas próximas eleições. Na ausência de Marina, provavelmente votaria no Serra. O cara de direita mais progessista ever, se é que existe direita nesse país.







Governador: Fábio Feldmann - 43


Pelo mesmo motivo da Marina. E também porque não simpatizei com nenhum outro. O chuchu é do governo, 16 anos de PSDB é demais... Mercadante nem pensar. Talvez até votaria no Skaf, mas num confio no meliante não, não ainda. Vou esperar prá ver se a coisa amadurece.








Senador 1: Marta - 133


Ah, meu. Digam o que disserem, mas a Marta é super "prafrentex". Ela é a única política que consegue ao mesmo tempo apoiar feministas, GLBT e ainda ter a aprovação de gente de tudo que é crença. Inclusive neopentecostalistas! Marta no senado prá não deixar a coisa regredir. Ela tem esse quê de romper com paradigmas, e precisamos avançar, e não retroceder. Deus me livre pôr um Zé mané que amanhã ou depois queira tentar proibir camisinha ou coisa tão mirabolante quanto. Marta pela política não moralista, e ponto final.





Senador 2: Ricardo Young - 430


Porque tá na hora de ter um senador engajado nas causas ambientais. Tem que ter gente pensando nisso também no senado, uai.










Deputado federal: Ivan Valente - 5050



Eu não consigo imaginar alguém do PSOL, PCB e afins em cargos de gestão. O Búfalo, por exemplo, acho ele o maior barato. Mas quando ele começa a falar em estatizar tudo, me dá arrepios. Enfim, eu defendo que tem que ter esses "malucos" na câmara e no senado. Prá questionar o status quo, prá protestar, prá se posicionar contra qualquer decisão política que venha a prejudicar a classe trabalhadora. Que não tenha coligações e o rabo preso com ninguém. Que diga não sem medo.






Deputado estadual: Léo Aquila


Gente, pelo amor de Oxalá. Chega de homofobia! Quando é que vão legalizar o casamento homossexual? Chega, tem que ter representação GLBT. Eu sempre disse que a parada gay tinha que ser em Brasília, na frente do Planalto.










23 de setembro de 2010

1964

Tô ficando manjada mesmo... começo a ficar cheia de coisa prá estudar e já vou postando uma poesia do meu baúl. Quero ver quando acabar este estoque poético, viu... Vou ter que começar a postar receita de bolo, que nem nos jornais dos anos de chumbo, hehehe... Credo.

Enfim, segue aí mais uma velharia. Se você tem rinite (a minha tá mega atacada, graças ao gato Otávio), aprecie com moderação, porque tá cheirando a mofo!






1964



Eu hoje vi um catavento
veloz, varrendo o mundo adentro
Eu hoje vi a roda viva
voraz, comendo o mundo afora
(e pás de moinhos ferozes)

Em aforismos, ouvi o mundo e vi
multidões e batalhões ao léo de anos-luz
E eu vi jovens, a juventude que morria
Eu vi a banda e a cavalaria

Eu vi, hoje eu vi
o meu país morrer por brasões
e canhões vetados, e ofensas
imensa tropa verde-hostil

Eu hoje vi um catavento
sagaz e tão sedento de egoísmo
varrendo cada metro, cada milha
semeando o medo e o niilismo
em cada pedaço desse meu Brasil.

2000 / 2001.

20 de setembro de 2010

Piratas do Caribe

TÔ SEM TEMPOOOOOOOO!

Mas não aguento... antes de postar uma encheção de linguiça (lamentável escrever isso sem trema), alguns desabafos em tópicos. Em ordem aleatória, como tudo na minha cabeça!

1)Um dos meus sonhos se realizou: vi o Eduardo Kobra no Faustão. Sempre quis fazer um post sobre ele, porque AMO grafite. Sobretudo de qualidade, e os dele são incomparáveis. O mais legal é que ele sai por aí grafitando pelas ruas de Sampa, dá prá ver a arte dele sem esforço nenhum. Eu babo! Apesar da tentação, não vai dar prá fazer um post decente, então fica prá próxima.

2)Fiquei o fim-de-semana todo terminando uma prova que tenho que entregar hoje. Na verdade o prazo era prá sexta, mas o professor se compadeceu, e estendeu o prazo. Tinha que mandar um e-mail até 12h00, e nem lembrava disso. Resultado: corri feito louca prá responder uma questão sem noção sobre o regime cambial brasileiro (afe...). Queimei os transistos, em mandei o troço às 11h45 (uuuuh...). Agora tenho uma prova mais sem noção ainda depois de amanhã. Você já começou a estudar? Eu não...

3)Ontem fui fazer bolo de banana (achei uma receita de microondas, adoro bolo de microondas. Quer mais praticidade?), e o liquidificador queimou. O bicho soltou fumaça até, ainda bem que ainda tá na garantia. pena que eu já passei da garantia faz tempo, preciso trocar várias peças.

4)Como não vou ter tempo de fazer um post legal por causa da PUC, então vou aproveitar o gancho e postar algo referente a ela mesma... [ironia mode ON] Segue uma resenha "super divertida", tenho certeza que será muito apreciada, vai chover cometário a rodo... [ironia mode off]. Como tudo que faço para a faculdade, fiz correndo e nas coxas. Veja só:


Resenha crítica - "Piratas do Caribe", de tariq Ali




O livro “Piratas do Caribe”, de Tariq Ali, revela as motivações e implicações da grande guinada à esquerda, ou “maré rosada” da América do Sul nos últimos anos. Neste contexto, os presidentes Evo Morales, Rafael Corrêa e Hugo Chávez representam os líderes que optaram por conduzir suas nações contra a maré dotada de tormentas (pelo menos aos países subdesenvolvidos) do Consenso de Washington, propondo navegar por mares políticos alternativos.

O problema desta guinada vanguardista à esquerda é que, segundo o autor, ela incita medo e hostilidade por parte dos seguidores do Consenso de Washington, pois ameaçaria a ordem intocável de suas intituições “quase divinas”.

Segundo Ali, a derrocada do socialismo e o trunfo do capitalismo levaram a uma prostração dos pensadores de esquerda (que antes viam o capitalismo como um câncer, e agora o vêem como uma cura disponível às mazelas humanas). Porém, estes “vira-casacas”, mais do que terem mudado de lado, apóiam e dão corpo ao movimento de “desinformação” promovido pela mídia global, detida por meia dúzia de magnatas que a manipulam em prol da sustentação do regime, suprimindo, inclusive, a verdadeira liberdade de expressão e pensamento.

Para a mídia ocidental, segundo Ali, um Estado é “bom” quando segue o consenso de Washington, independente se respeita ou não os Direitos Humanos. Paradoxalmente, ataca aqueles que procuram desviar-se de tais pilares, mesmo que seja através de meios democráticos.

Para o autor, o golpe de estado contra Chávez, eleito democraticamente em 2002, é um caso emblemático. Um golpe oligárquico e distorcido pela mídia que causou imensa revolta nas massas, que conseguiu restituí-lo ao poder.

Diante dos freqüentes questionamentos sobre a legitimidade do governo como o de Chávez, o autor argumenta que há o apoio massivo da população a Chávez, o que foi provado inúmeras vezes em referendos. Então por que os Estados Unidos temem tanto o seu governo? Segundo o autor, governos como os de Chávez, que rompem com o Consenso de Washington em prol dos menos favorecidos pode colocar em cheque a tranqüilidade dos países capitalistas, do “fim da história”.

Diante deste quadro proposto pelo autor, seria imediata uma reação crítica de um aluno de relações internacionais, cuja rotina de leitura é inundada pelo “mainstream” acadêmico, não por um acaso oriunda dos países fundados nos tais pilares do Consenso de Washington.

Uma primeira crítica, e talvez a mais contundente, seria em relação à legitimidade de governos como os de Chávez, cuja maioria política não necessariamente denotaria a existência de uma real democracia, havendo a possibilidade da existência da “tirania das maiorias” (conceito atribuído a John Stuart Mill em e a Alexis de Tocqueville), um dilema enfrentado por uma democracia quando os interesses de minorias são consistentemente obstaculizados por uma maioria eleitoral.

A estatização da mídia também poderia ser interpretada como uma forma de autoritarismo justamente por suprimir a voz das minorias políticas e supostamente manipular a informação em prol do governo, gerando uma “desinformação às avessas”.

Além disto, a redefinição do conceito de democracia proposto pelos “piratas”, seria uma ameaça à real definição de democracia, cujo sistema de “checks and balances” de Montesquieu permanece intocável para sua legitimidade.

Para compreender “Piratas do Caribe”, é necessário, entretanto, lê-lo com olhos alternativos a este “mainstream”, pois de outro modo, será uma tentativa em vão de compreender a visão política destes “líderes da contramão” e de seus respectivos partidos.

O argumento de Ali em relação à “desinformação” gerada pela mídia burguesa é legitimado pela idéia Gramsciana de que a imprensa cumpre um papel fundamental para dar coesão ao processo de formação da sociedade civil. Segundo Gramsci, a imprensa é controlada pelo capital privado, mas trata de assuntos públicos, o que lhe proporciona um grande poder com a segmentação da burguesia e com a economia burguesa, porque passa a exercer um papel que só é controlado pelo próprio capital, e que não é controlado pelas instituições públicas.

Noam Chomsky observa que a primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos diz que o Estado não pode censurar a opinião pública. Mas a primeira emenda nada diz sobre as corporações, porque estas nem existiam na época.

Como resultado, as corporações teriam um grande poder de selecionar os fatos, e divulgá-los de acordo com os interesses corporativos, revestindo-os com a aparência de fatos públicos, quando na verdade são fatos dados de forma privada. Logo, a imprensa toda seria partidária, movida por interesses ideológicos, financeiros, econômicos.

Ali não considera Lula como mais um “pirata”, pois este teria constituído um governo que mascararia sua condescendência ao Consenso de Washington, uma idéia que é corroborada pelo conceito Gramsciano de “Revolução passiva”, a qual implica sempre a presença de dois momentos: o da “restauração” (trata-se sempre de uma reação conservadora à possibilidade de uma transformação efetiva e radical proveniente “de baixo”) e da “renovação” (no qual algumas das demandas populares são satisfeitas “pelo alto”, através de “concessões” das camadas dominantes).

O caso brasileiro, sob esta perspectiva, também poderia ser analisado como um caso de “hegemonia às avessas”, de Francisco Oliveira, segundo o qual a política não passa pelo conflito de classes, desviando-se dele assim que se chega ao poder.

O grande questionamento que o autor suscita é em relação à própria definição dominante da democracia, a democracia liberal. É intrigante pensar que o caso da América do Sul pode estar demonstrando que usar uma definição hegemônica da democracia numa região dotada de especificidades pode ser um contra-senso. De uma perspectiva construtivista, fica o questionamento: será que o conceito liberal de democracia se aplica à América Latina, ou aqui nós temos um conceito próprio, condizente com nossa realidade e anseios?

Ora, a China já provou que para haver capitalismo, a democracia não é necessária, derrubando o argumento desenvolvimentista que sempre vinculou ambos. Ademais, Sabe-se que democracia política não necessariamente provê “democracia econômica”, e tudo indica que é isto que os “piratas” estejam buscando às suas populações.

Provavelmente partem do princípio de que o capitalismo está começando a demonstrar suas falhas, suas contradições. E justamente por isto talvez esta guinada à esquerda não seja fruto do acaso, ou um “desvio coletivo”, mas sim um indicativo de que o capitalismo e seus pilares do Consenso de Washington não são intocáveis e perfeitos. Talvez tenha chegado a hora de expelir uma nova forma de governar, ávida por nascer nos países da América do Sul.














8 de setembro de 2010

Nossa juventude conservadora



Quando se trata da Globo, eu confesso que tenho uma tendência conspiracionista. Não é primeira vez que assisto a uma reportagem do Fantástico com uma sensação incômoda de manipulação e etc. A primeira vez foi quando mostraram um ritual de passagem de uma tribo não sei de onde, na qual os jovens índios tinham que enfiar a mão em uma luva de formigas para se tornarem homens de fato perante a tribo.

O Fantástico retratou o ritual de maneira extremamente tendenciosa, caracterizando-o como desumano e primitivo, deixando a entender que os jovens índios são uns coitados nas mãos da tribo. Prá fechar com chave de ouro, mostraram um indiozinho, uma criança que dizia que não faria o ritual quando crescesse. O mais interessante é que mostraram esta criança como a única criatura sensata da tribo, e talvez a única esperança à irracionalidade primitiva de seus semelhantes. Cara, numa boa. Levi-Strauss deve ter se revirado legal no túmulo com essa.

A segunda vez foi neste domingo, com a reportagem sobre a iniciativa do Ministério da Saúde de disponibilizar camisinhas nas escolas. A reação negativa dos próprios jovens me deixou chocada. Fico pensando se não foi mesmo uma reportagem tendenciosa, até porque somente um ou dois jovens se mostraram a favor, e primeiro mostraram uma grande maioria contra. Fora que fizeram uma enquete ao vivo, na qual somente 54% dos telespectadores se manifestaram a favor.

Manipulada ou não, uma coisa é fato. Nossa juventude está cada vez mais conservadora. Tudo bem que o próprio Fantástico já noticiou isto neste ano. Mas para além de pesquisas e dados estatísticos (manipulados ou não), isto é um fato observável. Se a geração de nossos pais se preocupava com o futuro político de nosso país e de nossas garantias individuais, e sonhavam romper com a ordem para a conquista de seus direitos e realizações de seus sonhos, hoje a nossa juventude não quer romper a ordem, mas se inserir nela.

Nossos jovens não queimam sutiãs e não pintam os rostos para protestar nas ruas, mas planejam suas carreiras e inserção no mercado de trabalho, a compra de seus bens tecnológicos, planejam casar, constituir família, ter um bom emprego estável e morrer de velhice, preferivelmente dormindo.

Não que nossa juventude tenha virado uma massa amorfa e apática. Mas aparentemente, se algo suscitava um caráter transformador e "libertário", este algo não existe mais. Ele deu vazão não só a um conformismo e uma abulia política (o que, segundo alguns analistas políticos, é uma reação natural perante a conquista da democracia estável), mas um retorno a valores conservadores, e isto que é assustador.

É certo que não houve revolução burguesa na América Latina, e que somos impregnados por posturas tradicionalistas. É certo que o capitalismo não se desenvolveu plenamente aqui, e "Saturno nos trópicos" é mais do que uma fadiga depressiva. Os valores liberais não colaram. So sorry, babe...

Daí se explica porque é um aborto legalizar o aborto aqui. E porque a união homossexual nunca é legalizada, e os direitos dos cidadãos GLBT não são respeitados. Daí se explica muita coisa. 

Enquanto Estado laico (apesar dos crucifixos nas paredes dos tribunais), o Governo Federal brasileiro cumpre com seu papel e coloca a saúde pública acima de quaisquer convicções pessoais e religiosas. A atitude do governo foi pautada em dados estatístico sobre gravidez na adolescência e a AIDS.

Eu me lembrei das caras e bocas que surgiram quando o Ministério da Saúde resolveu distribuir camisinha nas ruas em época de carnaval. E tinha aquelas propagandas divertidas, com aquela marchinha dizendo que até Cleópatra encapuzava o boneco.

Na época disseram que era o pandemônio, que ali o sexo chegara à sua banalização extrema. Porém, a questão não é banalizar. O que mexe com as veias tradicionalistas é o fato de que o governo tirou o sexo da caixa preta do tabu religioso e social e o elevou ao nível do cotidiano de nossos adolescentes, o colocou no lugar que o pertence de fato, e de onde jamais deverá sair de novo.

Escola é lugar de distribuir camisinha sim. Finalmente o governo tomou uma atitude condizente com a realidade sexual de nossos jovens, cujo comportamento irá mudar sim com tal atitude. Não fazendo mais sexo, mas fazendo sexo com mais proteção.