Eu doida prá parir logo o post de Umbanda, mas não dá prá falar disso sem falar como cheguei a isso. Sei que corro o risco de fazer uma narrativa enfadonha, mas só entendendo minha trajetória espiritual prá entender como construí meu ponto de vista, o meu olhar sobre a Umbanda.
Ok, vamos lá. Na verdade já tem um resuminho sobre isso nas páginas do blog, vou tentar reproduzir o que eu disse lá sem me estender muito. Bem, minhas lembranças religiosas mais remotas são de um centro de umbanda que minha família frequentava - detalhe: a família TODA, sem exceção.
Eu era muito pequerrucha, e por isso mesmo me lembro que sempre chegava uma certa hora da noite no centro que eu dormia nos bancos de madeira do público. Era estranho ver todo mundo da minha família no congá, a maioria deles incorporada. Mais estranho ainda era minha avó com erê em dia de Cosme e Damião. Ver sua avó chupando chupeta não é uma visão usual, confunde qualquer cabecinha em tenra idade.
Bem, me lembro que iam os vizinhos também. Era tudo muito organizado, o pessoal disciplinado. Eles se trocavam lá, todos vestiam branco, as únicas cores que apareciam na vestimenta eram as cores das guias nos pescoços.
Mas esta é uma época remota mesmo, virou história. Página virada. Todos pararam de frequentar o centro por razões diversas, mas felizmente a fé nunca abandonaram - e a mediunidade ficou latente em cada um, impressionante. O único "rito" que sobrou deste capítulo de nossa família foi o saudoso tio Renato, com seu baiano Sebastião Oliveira dos Santos, que ia na casa do meu vô mais ou menos uma vez por ano prá aconselhar a família e vislumbrar nossos futuros e passados.
Bem, neste ínterim, nós fomos crescendo sem nenhuma religião definida, nada além de um certo espiritualismo. Acreditava em reencarnação e espíritos, mas não seguia nada piamente. Não quis fazer comunhão ou crisma, porque achava um absurdo fazer um troço desse se eu não me considerava católica.
Num dezembro de 1999, minha madrinha Susi (irmã de minha mãe), deixou uma meia dúzia de livros 'espiriteiros' (créditos do termo: blog "vida de dois ursos". Mais que recomendo! Post fantástico sobre o espírita e a homossexualidade) prá minha mãe ler. Claro que minha mãe num leu nenhum, e eu, na maior curiosidade, peguei um que se chamava "Copos que andam". Era sobre a famosa brincadeira do copo. Como no colégio o pessoal fazia a aterrorizante brincadeira do compasso (que sempre terminava em cocô), fiquei curiosa prá ler o livro.
Daí pronto. Foi um atrás do outro, e em poucas horas de leitura eu enfiei na minha cabeça que queria ser oficialmente espírita. Eu tinha treze anos, e li todo o acervo que minha madrinha tinha em casa. Fiquei insaciável, e um belo de um dia neste mesmo verão, pus uma saia jeans, uma blusinha e um tamanquinho e me atirei nos sebos de Santana prá comprar livros espíritas. Foi a primeira vez que saí de fato sozinha.
No sebo eu comprei o crássico "Violetas na Janela", além do Evangelho segundo o Espiritismo. Eu tava louca prá ler Kardec logo, e me encantei com o Evangelho. Daí, um dia eu estava na casa da minha melhor amiga da escola, a Juliana. Contei prá ela sobre a minha super jornada espiritual e ela disse que uma vez o pai dela comentou que tinha um centro espírita lá na rua dela.
Como estávamos sozinhas, nos atiramos na rua à procura do tal centro. E demos de cara com ele. Tocamos a campainha, e um rapaz nos atendeu, disse que naquela semana mesma estaria começando o grupo de jovens, no sábado às 16h00.
Cara, tempos áureos! Arrastei minha irmã pro centro, aprendemos a tocar flauta, entramos no coral e tínhamos aula só com o livro dos espíritos. Nosso mestre de então, o sr. Guerrero (que guardo no fundo do coração), injetava Kardec em nossas veias, sem a menor moderação.
Nesta época eu me joguei de cabeça no espiritismo. E fiquei uma crente insuportável, proselitista e inflexível - assim como é a maioria dos 'espiriteiros' de plantão que se autoproclamam "kardecistas". Isso foi até os 18 anos, quando comecei a trabalhar em uma livraria. Lá também vendiam livros espíritas, e por trabalhar no meio, comecei a sacar algumas paradas estratégicas de best sellers.
Foi quando eu me dei conta que a Zibia Gasparetto não é espírita, apesar de ser literalmente adorada pelos espiriteiros. E eu enxerguei nisso a maior estratégia de marketing livreiro de todos os tempos. Ela faz a mesma coisa que os escritores do New Age americano. Sem se autoproclamar coisa nenhuma, consegue adeptos de todos os credos e não-credos possíveis.
Aí foi decepção pura. Não acho que ela seja charlatã. Até porque eu já vi o filho dela pintando 3 quadros de uma vez, cada um com um membro diferente do corpo, e quadros lindíssimos. E não creio que a vovó Mafalda tenha tanta criatividade prá escrever romances de época. Mas e daí? Médium existe com todo o tipo de caráter, e era o caráter e as intenções da velhota que estavam em jogo prá mim.
Peguei birra ferrenha dos Gaspas. Poxa vida, tavam melando o movimento espiriteiro, usando TODA a base da doutrina sem fazer nenhuma menção a ela, e às suas custas ganhando rios de dinheiro. Quinta colunas do cacete, viu...
Depois desse desencanto, veio o próximo. O Ramatis. Comecei a me inteirar mais sobre o movimento espírita, a estudar sua história. E descobri a facção esotérica que se desvinculou do mainstream (A FEB - Federação espírita Brasileira) e fundou a Aliança Espírita.
Ramatis é safra da Aliança, se não me engano. É um espírito todo esotérico, e seus livros vão de encontro a princípios básicos da doutrina. Coisa de louco. Não sei como as pessoas conseguem conciliar ideias tão diametralmente opostas... Meu, o cara diz que os marcianos são louros porque são hierarquicamente superiores a nós. Darwinismo social na veia, VSF!!!!
Aí depois disso, veio o terceiro desencanto. Com o centro. Ou melhor, os trabalhadores do centro. As paranóias deles, os pré-conceitos, a religiosidade fervorosa que eles negam até a morte (ops, desencarne). Os jargões de seu vocabulário, seus clichés comportamentais e tabus.
Comecei a me sentir sufocada por aquele bando de ignorantes. Comecei a presenciar cenas ridículas de gente fingindo estar incorporada prá falar o que quisesse e ter prestígio. Mas o que mais me irritava era o falso moralismo. Bando de hipócritas, humpf.
Aos 22 anos abandonei o centro, completamente desiludida. Foi quando encontrei o "Espiritismo Ortodoxo". Pessoas com as mesmas inquietações que as minhas. Que viam um espiritismo degradado, maculado pela religiosidade mandingueira espiritólica de nosso povo.
O raciocínio desse pessoal é mais ou menos assim: Kardec usou o C.U.E.E (controle universal do ensino dos espíritos), um método empírico, portanto científico e racional. Só ele usou a psicografia com racionalidade científica, coisa que ninguém jamais voltou a fazer. Portanto, se não é Kardec, não é racional, e não é espiritismo.
Achei tudo isso o máximo. Mas essa empolgação durou menos de um ano, felizmente. Isso porque esse pessoal é mega radical. Eles se dizem racionais, mas prá mim são racionalistas. O extremo oposto do espiritismo à brasileira, todo ritualístico e sincrético. Só que este extremo foi muito prejudicial prá mim.
Isso porque à medida que eu racionalizava cada vez mais minha fé, mas eu a perdia. Não sei como esse pessoal consegue nutrir fé sendo tão racional. Até hoje eu não concordo que exista a tal fé racional, porque são coisas opostas prá mim. A fé é um ato religioso, e portanto não racionalizável. Quanto mais eu me enfiava no Espiritismo ortodoxo, mas eu me afastava de minha própria espiritualidade. Porque o aprimoramento moral passou a parecer algo tão infantilóide e irracional, que abandonei minhas preces e o pouco que restou de minha empolgação espiriteira.
Enfim, abandonei o Espiritismo ortodoxo e fiquei flutuando num mar etéreo até o coração começar a bater forte com os atabaques... Eu percebi que não dá prá querer racionalizar a verdade do universo, e "há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina vossa vã filosofia" começou a fazer mais sentido do que nunca.
Voltei a me entregar à magia religiosa que me cercava nos tempos idos de adoração espírita. Só que agora sem me amarrar a credo nenhum ou doutrina. Me sinto livre, e nunca minha intuição esteve tão aguçada. Nunca tive tantas experiências transcendentais como tenho agora, e me sinto mais conectada com os meu guias do que estive em qualquer fase anterior.
Antes, se um espírito me pedisse prá eu acender uma vela, jamais o faria. Afinal, o que é uma vela? Um nada, pois o que manda é o pensamento. Tola, a vela é um instrumento prá canalizar o pensamento. O racionalismo puro, livre de qualquer grau de magia é, na minha opinião, intangível pelo homem. Precisamos ainda de instrumentos de fé - seja ele um hino evangélico, uma vela, um santinho ou um patuá. Não importa. e nesse sentido, a vela continua sendo um nada, mas o que é produzido através dela, é maior do que pensa nossa vã filosofia.
































