Cara, eu nem sei como vou fazer prá escrever sucintamente sobre isso. Mas prometo ser o mais breve e menos mala possível.
Aos 18 anos, eu descobri que tenho TDA - transtorno de déficit de atenção (conhecido também por DDA - distúrbio de déficit de atenção). Na verdade, este é um termo genérico, pois comporta alguns subtipos de distúrbios, alguns associados à hiperatividade, depressão, etc.
O subtipo mais conhecido é o TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade). É mais fácil de diagnosticar porque é bem perceptível logo na infância. São aquelas crianças hiperativas e com dificuldade de concentração.
O meu subtipo é o TDA sem hiperatividade. Geralmente acomete meninas (o contrário do TDAH, cuja maioria dos portadores é do sexo masculino). Vou tentar resumir aqui os sintomas:
Infância
- na escola, são crianças quietas, tímidas e com dificuldades de socialização;
- apresentam inteligência aguçada, porém têm problemas de rendimento por dificuldade de concentração;
- não concentram-se com facilidade nas aulas, às vezes não ouve o que o professor diz, perde-se em seus pensamentos;
- têm dificuldades com algumas matérias específicas, principalmente as de exatas;
- podem não querer ir à escola por se acharem incapazes;
- baixa auto-estima, sentem-se inferior aos colegas;
- têm dificuldade de organizar trabalhos escolares;
- frequentemente perdem materiais escolares, livros, etc;
- esquecem de fazer deveres.
Idade adulta
- alterações de humor, alta irritabilidade
- sentimentos intensos
- esquecimento de compromissos
- constante perda de objetos
- procrastinação
- dificuldade em ser pontual
- perdem-se em lugares conhecidos
- começam vários projetos ao mesmo tempo, não terminam nenhum
- dificuldade em concentrar-se em atividades que os desagradam, ou que os pressionam
- superconcentração em atividades que os agradam
- compulsividade, que pode traduzir-se em compulsão alimentar, vícios, etc.
- depressão
- dificuldades em manter-se em um mesmo emprego
- dificuldades em manter relacionamento estável
- insegurança, que traduz-se em ciúme excessivo
- muitas ideias ao mesmo tempo, que tornam-se obssessões
Para muitas pessoas, é difícil acreditar que eu tenha tudo isso. Até porque hoje em dia, muitos me conhecem por características opostas às descritas acima. Mas o que ocorre é que eu consegui domar muitas delas.
TDA tem tratamento e, para além de remédios, o trabalho do psicólogo está mais relacionado a oferecer ao paciente métodos simples para lidar consigo mesmo. Um exemplo banal é a adoção de agendas para organizar suas atividades, entre outros.
Como eu descobri meu TDA?
Aos 18 anos, eu trabalhava numa livraria. Todo mundo acha que deva ser um trabalho super legal, que os funcionários passam o dia lendo, etc. Mas não é nem um pouco. Porque eu trabalhava como uma camela, e só podia ler a quarta capa dos livros, para ter uma noção do que se tratavam.
Ou seja, nesta época, conheci muitos títulos, mas não aprofundei nenhuma leitura. Estou contando isso porque num belo de um dia chegou um livro que estava estourando em vendas nas grandes livrarias, o
"Mentes Inquietas" (de
Ana Beatriz Silva). Eu ainda não conhecia o livro, o gerente da loja que o pegou para folhear, e logo me chamou, surpreso, pedindo para lê-lo porque o livro simplesmente me descrevia por completo.
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| O culpado da minha grande descoberta, rs. |
Eu li o livro sim, mas fiquei muito assustada, e de imediato neguei que eu pudesse ter o distúrbio. Mas os testes do livro davam positivo sempre, então resolvi tirar essa história a limpo. Nós tínhamos uma cliente psicóloga (um amor de pessoa), cujo consultório era praticamente ao lado da livraria. Eu comentei sobre o acontecido com ela, e ela se propôs a conversar comigo.
Bem, fui lá... respondi várias perguntas, falei da minha vida e da minha infância. Ela disse que não precisaria de muito mais para ter certeza da minha TDA.
A trajetória do meu TDA
Na infância, eu tinha dificuldade em me concentrar nas aulas. Me achava incapaz prá tudo, inferior a todos. Eu cheguei a mentir para os meus avós uma vez que minha professora mandou fazer uma atividade que não ouvi ela explicar, e não entendi necas. Era prá levar no dia seguinte, então disse que eu não teria aula. Minha vó descobriu, hehe. Nunca mais menti por medo da reação deles, mas o pavor de encarar estas situações continuou por alguns anos.
Não me socializava, ficava sempre de canto, tinha sempre uma ou duas amigas, no máximo. Perdia meus materiais, livros, cadernos... com muita frequência, e isso me prejudicava. Minha avó dizia sempre que eu vivia no "mundo da lua", e isso começou a encher tanto a paciência dela que ela resolveu comprar prá mim um remédio para memória, chamado "cerebrex". O problema é que eu esquecia de tomar o bicho, e vi algumas caixas do remédio passarem da validade, hehehe.
A adolescência foi um martírio. Já é um período complicado para qualquer ser humano. Para um TDA então... Tive depressão, muitas crises existenciais, auto-estima zero... Comecei a namorar aos 16 anos. Coitado do cara, foi um relacionamento completamente doentio. A insegurança e o ciúme doentio me dominava. Eu cheguei a procurar o
MADA para tentar resolver o meu problema. Pensei também em fazer terapia, mas meu ex achou um absurdo...
Algumas compulsões e vícios se originaram nesta fase. A compulsão alimentar (com quem brigo até hoje) e compulsão por comprar (hoje é item riscado de minha lista, felizmente). Quando comecei a trabalhar, também foi outro problema: não conseguia chegar no horário, postergava tudo o que não gostava de fazer, e minha chefe era tão insana, que eu não conseguia escutar o que ela falava. Só via a boca se mexendo, o pavor era tão grande, que nem as ordens dela eu entendia, me dispersava muito.
Foi justamente neste período que "descobri" a TDA. E foi o que me tirou do limbo e me deu impulso prá começar a mirar o céu, e não mais o chão.
Como eu aprendi a "domar" meu TDA?
O primeiro passo foi a aceitação, o que foi bem trabalhoso. Aceitar-me torta como sou e gostar de mim mesma foi fundamental para seguir adiante. O que ajuda muito é pensar que a TDA tem tratamento (apesar de não ter "cura", já que não é uma doença propriamente dita).
Além disso, descobri que a TDA tem também seu lado bom. Nós temos atributos que acabam nos beneficiando. Quando gostamos de uma atividade, nos superconcentramos e a desenvolvemos com um afinco incomparável. Fora que são pessoas com muita criatividade e talentos dos mais variados. E são sempre destacadas por estes talentos.
Isso me ajudou a identificar minhas qualidades. E, consequentemente, me deu mais segurança e auto-estima. Agora sei que esse meu jeitão torto tem suas qualidades, as quais eu posso oferecer a qualquer área da minha vida: em casa, no trabalho, nos estudos...
Posteriormente, alguns fatores exógenos me ajudaram a transformar defeitos em qualidades. Foram situações que me pressionaram a mudar minhas atitudes, pois de outro modo eu teria custos altos para arcar. A exemplo, fui morar sozinha, e como precisava garantir meu aluguel, tive que encarar o emprego casca grossa que eu tinha, pois pagava muito bem e me garantia nas despesas.
O problema é que minha chefe lá era uma verdadeira
Miranda Priestly ("O diabo veste Prada"). Se você assistiu o filme, sabe do que estou falando. Além disso, o escritório era na Berrini (o c* do mundo). Mas eu não podia desistir. Me enchi de coragem e matei esse leão. Não podia nem sonhar em chegar atrasada. Qualquer falha minha resultaria em demissão, na certa.
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| Maryl Streep como Miranda Priestly, em O Diabo veste Prada |
Resultado: aprendi a ser pontual, a me concentrar mais e me organizar. De maneira tão intensa, que peguei várias manias de secretária. Felizmente! Hoje, não vivo sem agenda, e tenho prazer de organizar a minha rotina.
Quanto aos outros problemas, a resolução para quase todos eles se chama Ewerton, ou Gamarra. Com ele eu me dei conta que o que eu mais preciso é de um companheiro diferente de mim. E ele é meu oposto ao extremo. Uma pessoa absolutamente calma e centrada. Com ajuda dele eu domei os meus monstrinhos, pois eu não queria perdê-lo como eu perdi meu ex.
Este blog nada mais é do que uma expressão do meu TDA. Minha cabeça é inundada de ideias e projetos o tempo todo, que me dominam de um jeito que mal me deixam dormir. Eu preciso expelí-las um pouco prá me sentir mais aliviada...
Nossa, tem muita coisa que eu poderia ainda escrever. Mas eu prometi não ser mala, e acabei sendo mega master mala, então fico por aqui. Agora pelo menos dá prá sacar a piadinha da primeira imagem deste post, hehehe...
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